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Ninguém apostaria no Sepultura em 1984, conta Andreas Kisser


Um dos maiores nome de metal do Brasil, banda faz shows especiais no RJ e SP neste final de semana

Um dos maiores nomes da história do metal mundial, o Sepultura faz dois shows especiais em São Paulo e Rio de Janeiro neste final de semana (veja serviço ao final da entrevista) para comemorar os 30 anos do primeiro disco da banda, que começou em Belo Horizonte nos cada vez mais longínquos anos 1980, quando ainda fazia uma mistura de death e black metal.
Por conta disso, a Brasileiros bateu um papo com o guitarrista Andreas Kisser, um dos dois remanescentes da chamada “formação clássica” da banda juntamente com o baixista Paulo Jr., e responsável por discos clássicos do metal mundial, como Beneath the Remains, Arise, Chaos AD e Roots, o último com o vocalista Max Cavalera, que saiu em 1996 e foi seguido uma década depois pelo irmão Iggor Cavalera – hoje, eles tocam juntos no Cavalera Conspiracy, que obviamente traz muitos sons do Sepultura nos shows.
Diretamente dos EUA, onde encerrava a turnê norte americana da banda após cerca de 40 shows, Andreas falou sobre o elogiado último disco The Mediator Between Head and Hands Must be The Heart (2013), explicou como escolheram o setlist dessa tour especial, lembrou com orgulho a admiração de bandas como Slayer e revelou os discos que mudaram a sua vida, entre outras coisas.

Brasileiros – Como foi voltar aos EUA com uma turnê dessas? Vocês chegaram a ficar um tempo sem tocar por aí, certo?

Andreas Kisser – Estados Unidos sempre foi um lugar difícil para fazer turnê, até porque é um país grande. Mesmo na época do Chaos AD e do Roots, a gente nunca chegou a fazer uma turnê de arena por aqui. A gente só abriu pro Ozzy, abriu pro Ministry, fizemos o Ozzfest e coisas assim.

Teve aquela lendária com o Pantera na época da Copa de 1994 também, né?

Sim, teve essa do Pantera também, exatamente. Mas nunca uma turnê nossa mesmo. Os EUA é um país que precisa trabalhar bastante e tocar muito aqui.

E como você percebeu o público aí nessa tour?

Ah, o público tá excelente. Nas cidades maiores foi sold-out e nas cidades um pouco menores também um público bem legal. Eu vejo os números e nem Slipknot, nem Foo Fighters tão fazendo show sold-out por aqui. Os EUA é um lugar bem difícil mesmo. Independente do tamanho do show, lógico. Mas hoje é difícil você ver uma turnê sold-out como tinha nos anos 1990. E isso é parte do momento. Mas tá ótimo. O heavy metal tem uma base de fãs fantástica que tá mantendo a gente na estrada por quase dois anos no mundo inteiro com esse disco (The Mediator Between Head and Hands Must be The Heart). Na verdade, vai manter por dois anos, já que até novembro a gente está com a agenda cheia.

E qual a ideia depois disso? Parar por um tempo e depois já partir pro disco novo?

É, a ideia é essa. Começar a pensar no disco para 2016.

E vocês já tem alguns sons ou vão parar e fazer tudo do zero mesmo?

Ah, ideia sempre tem. A gaveta tá cheia de riffs. O lance é meio parar, ver o que a gente vai fazer, vai falar, qual o conceito. A gente ainda precisa definir o que vai fazer. Mas é um processo que a gente vai começar em breve.

Vocês trabalharam de novo com o Ross Robinson (Roots) no último disco. Além disso, a lista de produtores que já tramparam com o Sepultura tem ainda o Scott Burns, Andy Wallace, Steve Evetts, Roy Z, entre outros. Tem algum nome em especial que você gostaria de trabalhar no futuro? Ou mesmo uma listinha de produtores que te interessam?

Não, na verdade não. Acho que isso depende mais do momento, do que a gente tá fazendo, qual o estilo, qual a proposta do disco. Acho que tem muitos fatores que se leva em conta nessa hora. Então, sei lá, não tem uma listinha de produtores. Ia ser legal trabalhar com o Rick Rubin (Black Sabbath, Slayer, Metallica), mas ele é muito caro e nunca fica no estúdio mesmo (risos).

Vocês tão com um setlist especial nessa tour, incluindo músicas bem antigas e outras que não eram tocadas há algum tempo, como “Bestial Devastation”, “Primitive Future”, “Mind War”, “Choke”, entre outras. Foi muito difícil para decidir isso? Vocês decidiram os quatro juntos, como rolou?

Não, cara. A gente vai montando aos poucos. O setlist sempre tem a espinha dorsal com os clássicos do Sepultura, vamos dizer assim, que a gente sempre toca, como “Arise”, “Refuse/Resist”, “Roots”, “Troops of Doom”, “Attitude”, músicas assim. E aí a gente vai colocando ao lado algumas músicas que não tocava há muito tempo com essa proposta dos 30 anos. Então estamos tocando a “Bestial Devastation”, “From the Past Comes the Storms”, voltou a tocar “Choke”, tocamos a “Mind War”, que é do Roorback. Enfim, a gente vai montando o set de acordo com o que a gente tem na mão. Tem muita música para escolher, mas nunca foi um motivo de briga ou algo do tipo. A gente sempre chega num ponto em comum em que todo mundo tá de acordo com o que a gente vai tocar.

E cansa mais tocar as coisas antigas, quando a banda tinha uma pegada mais thrash/death metal?

Não, acho que é mais difícil tocar as músicas novas. As músicas do “ Mediator…” provavelmente são as mais difíceis que a gente já fez até hoje. O Eloy (Casagrande, baterista) trouxe muitas possibilidades novas para a banda. E o Eloy engloba o melhor do Iggor e o melhor do Jean (Dolabella, baterista que tocou na banda entre 2006 e 2011) e mais o melhor dele. Ele é realmente um fenômeno na bateria. É um cara que, apesar de jovem, já é muito experiente e tudo mais. E acho que as músicas novas estão em um nível bem mais alto do que as antigas. O lance das antigas é só relembrar uma parte aqui e outra ali, pegar um solo de novo. Acho que também acaba sendo um desafio para o Derrick (Green, vocalista da banda) por ser um inglês macarrônico que ninguém entendia nada do que a gente tava falando. Traduzia as músicas do português para o inglês e deixava do jeito que tava. No Schizoprenia é muito difícil achar sentido em alguma letra ali (risos). É uma mistureira de frases, na verdade. Então o Derrick tem que se virar para tentar achar algum sentido e cantar as músicas da melhor maneira possível. Ele coloca a versão dele, sempre respeitando a música do Sepultura, que acaba deixando a música mais interessante.

E vocês tão pensando em fazer alguma coisa especial para esses shows de SP e RJ? Chamar algum convidado no palco, fazer um setlist ainda mais especial?

Não, a gente sempre tem participação nos shows. Acho que a surpresa vai ser não ter participação dessa vez. Todo show tem… Já fizemos com o Jairo (Guedez, guitarrista original da banda) várias vezes, com o pessoal do Krisiun, uma galera amiga, bandas de outros estilos também. A gente vai fazer um show em que a prioridade, e toda essa beleza de comemorar 30 anos, é realmente o momento atual. A gente não tá fazendo um show saudosista, mas um show atual. A gente toca disco novo. Aliás, estamos fazendo a turnê do disco novo, que coincidentemente é a turnê dos 30 anos. E isso é muito legal. Comemorar o momento, não ficar preso ao passado e tentar reproduzir coisas meio saudosistas, né? É Bestial Devastation 2015, From the Past Comes the Storm 2015, com o Eloy e o Derrick. E isso que é o mais importante. Músicas que foram gravadas há 20 anos, 30 anos, que ainda tem uma atualidade muito forte. Então é legal você sentir isso. E você comentou do setlist, a gente faz um setlist “não político”, é um setlist geral, para o fã. Não importa quem tava na banda em 1985 ou 2015 ou qual era a gravadora. Tem muita gente que fala: “Ah, não toco isso porque tinha essa pessoa na banda”. A gente não tem isso, a gente respeita muito o fã e toca desde o primeiro disco até o último, então acho que é um show bem completo.

Falando em participações especiais, você já tocou com Anthrax, Slayer, Dio, Exodus, em shows, entre outros nomes gigantes do metal. Como é isso para você? O Kerry King, do Slayer, até falou recentemente que se não fosse o Gary Holt você era o nome seguinte na lista pra entrar no lugar do Jeff Hanneman (guitarrista falecido em 2013).

 É, ele comentou isso comigo na época do Big Four (turnê com Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax). Brincou que o Scott Ian (do Anthrax) foi mais rápido do que ele, porque foi meio que na mesma época que eu fiz a tour com o Anthrax. Mas a minha participação no Slayer não seria como a do Gary Holt, não sei se eu conseguiria realmente entrar na banda, como ele fez junto com o Exodus. E eu tenho De La Tierra, tenho outros projetos. Mas eu fico muito honrado. Porra, Slayer é uma das maiores bandas da história, na minha opinião. E foi uma das maiores influências no meu jeito de tocar e no Sepultura mesmo. E eu acho muito foda esse reconhecimento de um cara que escreveu tudo aquilo, achar que eu poderia estar na banda tranquilamente. Mas vou esperar meu filho crescer um pouco mais e aí ele pega esses trampos (risos).

Quais foram os discos que mudaram a sua vida?

Com certeza o primeiro que eu comprei, que foi o A Night at the Opera, do Queen. O Queen foi uma das minhas primeiras paixões na música junto com o Kiss. Então acho que dá pra colocar o A Night of the Opera, do Queen, e o Alive II, do Kiss. Que foram discos que me influenciaram tanto e eu tô aqui por causa disso, por causa deles praticamente. E lógico também que os discos do Black Sabbath, Metallica, como o Master of Puppets e o Ride the Lightning. Mas acho que o Queen e o Kiss foram as duas bandas que abriram o caminho para eu entrar nesse mundo e ser o que eu sou até hoje.

E foram esses discos que te fizeram começar a tocar guitarra?

Eu comecei com violão, né? Só queria tocar “Stairway to Heaven”, que era meu grande objetivo na vida. E guitarra e violão foi paralelo, eu nunca larguei o violão, sempre fiquei com os dois, até hoje. Sempre estudei violão, nunca tive aula de guitarra. Tive aula de violão, técnicas diferentes e tudo mais. Amo violão clássico, tocar música de 500, 600 anos atrás, coisas que nunca foram gravadas, mas que você pode tocar ali com a partitura e dar o seu toque. Isso é uma coisa fantástica, que abre a cabeça para outras possibilidades e sempre ajuda na guitarra elétrica, para tentar coisas diferentes, fazer coisas diferentes.

Qual a maior lição que você aprendeu nesses 30 anos de banda?

Respeitar você mesmo, suas escolhas. Não ficar colocando máscara para agradar ninguém, seja fã, gravadora, pessoal de rádio, quem seja. Seja você mesmo. O Sepultura só conseguiu o que conseguiu sendo a gente mesmo, fazendo death metal barulhento em uma cidade religiosa como Belo Horizonte. Se alguém fosse apostar no Sepultura em 1984 como maior representante internacional da história do Brasil na música seria motivo de piada, neguinho ia dar risada da sua cara. Mas a gente sempre fez o que a gente quis. Chegamos onde a gente chegou por aquilo que a gente acredita. É muito melhor você defender uma ideia em que você acredita do que defender uma ideia dos outros. Então acho que aprendi isso. Seja você mesmo. Ou você é honesto com a arte ou a sua arte é uma falácia.

E você acha que rola uma perseguição desde sempre com o Sepultura, de sempre achar um motivo? Hoje ainda tem gente que reclama por não ter mais os Cavaleras, mas bandas como Napalm Death não tem mais ninguém da formação original e a gente não vê ninguém reclamando por aí.

Acho que rola um pouco. Acho que o Green Day e o U2 ainda tem os mesmos caras na banda, o resto…Tudo mudou, mas só o Sepultura que não pode mudar. Mas isso é coisa de choradeira de viúva, sabe? Neguinho que sai porque quer e depois fica chorando. Não sabe resolver a vida e depois fica falando: “Aquilo é meu, aquilo é meu”. Meu, escolheu sair? Vai fazer seu trabalho. Deixa a gente em paz. Não foi escolha minha ter te tirado da banda. Nem pelo nome os caras brigaram. Então não tem o que reclamar. E aí fica chorando, fica falando: “Ah, tinha que ser isso, tinha que ser aquilo. Só eu isso ou só eu aquilo”. Putz, enche o saco, velho. Então o fã fica acreditando em um monte de história da carochinha de um bebê chorão que tá completamente arrependido do que fez. Mas a gente tá acostumado. Tenho certeza que o Van Halen passou por isso também. Até o Iron Maiden. Mas a gente não tinha toda essa informação na época. Muito menos de assistir show dos caras. Mas eu lembro que o Bruce Dickinson passou por várias coisas quando o Paul Di’anno saiu. A primeira turnê foi bem difícil para os caras. Mas enfim, é um caminho que a gente tem que percorrer e a gente não entrou nessa ladainha de ficar respondendo pela imprensa. Tipo “ele falou isso, então eu vou falar aquilo”. A gente muito mais o que fazer, a gente tá vivendo, a gente não tá sofrendo. A gente tá limpando a casa, tirando os ratos e as baratas de frente e deixando o ambiente limpo pra gente seguir em frente de cabeça erguida. Aqui a gente não tem vergonha de nada e estamos aqui por que a gente ama o que a gente faz. A gente não tá enganando ninguém, não tem fórmula. A fórmula é simplesmente amor mesmo, não tem outra maneira de descrever. E os fãs também…problema deles se quiserem sofrer, ficar bravo, cada um tem boca e cérebro pra falar o que quiser. Respeito qualquer tipo de opinião, respeito mesmo. Só não concordo com todas, obviamente. Mas você tem todo direito de falar aquilo que você quiser. Mas enfim, tem fã também que chega e fala: “Faz tempo que não vejo vocês, agora que peguei pra ouvir o Against, puta disco legal”. Tem muito daquela nuvem, daquela modinha, do tipo: “Nossa, mas você tá escutando os caras?” E aí você cresce e vê que tudo aquilo era um monte de idiotice, que você precisa gostar das coisas por você, nas pelas outras pessoas. Eu gosto de Metallica, mas também de Beyoncé, de Lily Allen, foda-se (risos). É música, eu curto. E eu não preciso ser o cara que está usando a máscara de metal sempre.

Voltando ao que você falou sobre as declarações mais pesadas do Max e do Iggor na imprensa. Você acha que isso dificulta que vocês pelo menos voltem a ser amigos?

Ah, eu não penso nisso, cara. Eu não tenho vontade…Ou eu não trabalho para isso. Acho que essas coisas tem que ser naturais. Eu não trabalhei nada para ter a amizade deles na primeira vez. As coisas apenas aconteceram. Não tem que forçar nada. As coisas acontecem porque acontecem e a gente tem que lidar com as consequências. A gente lidou com as nossas e eles com as deles. E o que eles falam é igual a qualquer outro fã, é uma opinião. Eu respeito a opinião deles, eles tem direito a qualquer opinião, mas não concordo, só isso. Deixa falar, meu. Tem boca, fala.

A última pra te liberar. Do que você tem mais orgulho na sua carreira?

Orgulho? Ah, meu, sei lá. Ter construído uma família com uns riffs de guitarra (risos). Isso foi espetacular. Não ter que abaixar a cabeça para a sociedade para pagar conta. Pude fazer a coisa que eu curto mesmo e, ao mesmo tempo, ter grana pra pagar conta e outras coisas que a gente é obrigado a fazer. E ter uma família espetacular, porque eles são fantásticos. Uma mulher incrível, 25 anos juntos. E tamo junto. Acho que é isso, tô junto com a banda, com a família e acho que isso é uma conquista fantástica. Espero que venha mais 30 anos aí, esperando meus netinhos chegarem


 Fonte: Brasileiros.com.br
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